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VII Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual

25 a 30 de julho de 2011, Salvador/BA - TCA - Goethe-Institut - DIMAS - Hotel Sol Victória Marina

Arthur Omar fala sobre sua mais nova produção "Os Cavalos de Goethe"

Arthur Omar exibe seu filme Os Cavalos de Goethe (2011/ Brasil) pela primeira vez na Bahia na Mostra Internacional de Filmes do CineFuturo. Em entrevista, o cineasta fala sobre a produção do longa e do seu renascimento baiano, ao voltar à Bahia.

Cine Futuro: Como surgiu a ideia de fazer o filme e o que significa para você a "alquimia da velocidade"?

Arthur Omar: A ideia do filme não teve uma origem única, veio de diversos desejos que acabam se cruzando e gerando um filme que eu não tinha nenhum plano anterior de fazê-lo. Eu fui descobrindo o filme a medida que fomos filmando, não é à toa que ele demorou um ano sendo feito. Eu queria fazer um filme que tivesse alguma coisa relacionada com a minha viagem ao Afeganistão.

Eu queria fazer uma experiência com uma montagem e um tempo dilatado de tal forma que o filme fossse bastante lento, coisa que contraria um pouco a maioria dos filmes que eu tenho feito, que são muito rápidos, que têm uma montagem vai estabelecendo conexões audiovisuais e levando a atenção do espectador em uma ou outra direção.

CF: É a passagem do tempo que diferencia esse filme dos anteriores?

AO: Esse filme foi um desafio. Diferente dos outros, eu quis fazer um filme através de uma grande lentidão, na fronteira da imobilidade, e que mesmo assim pudesse prender a atenção do  espectador. E se eu atingi ou não esse objetivo, é o público quem vai dizer, mas eu fiquei satisfeito com o resultado.

CF: E a alquimida da velocidade?

AO: A alquimia da velocidade é isso: que o cinema, em última instância, é movimento, é velocidade, mas não velocidade vertiginosa, mas é algum tipo de deslocamento. No momento em que eu mexo com essa velocidade, seja acelerando, seja ralentando, eu, de alguma forma, posso obter uma coisa nova.

Nesse filme, eu ralentei quase que desmesuradamente o conteúdo as imagens, quase parando-as. Na verdade, o conteúdo do filme, que tem uma hora de duração, são poucos minutos que são esticados, mas acho que ao atuar de uma maneira tão radical na velocidade eu acabei realizando com a imagem uma alquimia e alguma verdade nova, algum ouro, a percepção de alguma coisa que não estava prevista no início emergiu.

CF: E o que você tentava captar e transmitir ao público através dessa lentidão?

AO: A ideia do filme, embora seja um filme que trabalhe com a lentidão máxima, a ideia não é observar o jogo e o combate dos cavalos e dos cavaleiros. A ideia não é como numa filmagem dessas de esportes, que você vai olhar aquilo com uma câmera super veloz que vai te dar uma lentidão da imagem para você ver aquilo que escapava a olho nu. Eu não estou interessado no que escapava a olho nu, embora ao trabalhar com a lentidão isso também apareça, eu estou interessado no oposto, estou interessado em chegar a um arquétipo.

Eu não quero fazer um documentário sobre aqueles cavaleiros, naquele momento, fazendo aquele combate em Cabul que, na verdade, foi o primeiro combate depois da queda dos talibãs na abertura no estádio. O estádio era usado para execuções, lapidação de mulheres adúlteras, para decepação de mãos de criminosos e para o castigo de infiéis. Eu não estava interessado em documentar isso, eu estava interessado em passar por cima daquele presente da imagem que eu estava capturando ali, chegar a uma espécie de arquétipo da luta, arquétipo do jogo, arquétipo do combate, arquétipo da guerra.

O país vive em guerra a mais de vinte anos, é um país no qual a guerra faz parte da própria cultura e é um país, até certo ponto, devastado pela guerra, seja soviéticos, sejam os americanos, sejam os talibãs, seja a luta entre as diversas etnias, essa coisa da guerra que se expressa nessse jogo, que é o jogo mais popular por lá, como é o futebol aqui. Que levanta as paixões, que é muito violento, praticado desde a Idade Média. É uma coisa realmente arcaica.

A ideia seria filmar aquilo descontextualizando através da lentidão das imagens o ambiente moderno contemporâneo pra gente quase que olhar para aqueles rostos, aquelas posturas corporais, como se existivéssemos assistindo a algo imemorial, como se a gente tivesse, mesmo com  extinção ou proibição do Buskashi continuará existindo como um arquétipo e uma potência.

E o filme tem muitas alusões, não somente à coisa da guerra e do contemporâneo, porque a ideia é fazer uma espécie de ideograma, de metáfora, em que eu não mostro nada sobre o contemporâneo, mas você acaba captando a força e a energia dele. Não o decalque realista fotográfico, seria quase que uma imagem poética do Afeganistão hoje. Mas tem a incorporação nesse filme, das zonas culturais que estã totalmente fora, por exemplo, a poesia inglesa do Eliot, que é lida pelo Alec Guinness a quem eu cito no filme.

Os quatro quartetos do T.S. Eliot escrito nos anos 40, falam sobre a superposição tempo-futuro e tempo-passado estão contidos no tempo-presente, tempo-presente e o tempo-passado estão contidos no tempo-futuro. Então o filme é uma ideia de suspensão dessa experiência linear do tempo pra se chegar a essa experiência mais ampla e imóvel. Eu até dria de uma forma mais radical que mais do que um documentário sobre o Buskashi, o filme é um documentário sobre o tempo através do poema do T.S. Eliot.

CF: E qual trilha sonora utilizada na construção desse documentário?

AO: A trilha sonora, fora alguns elementos incorporados e toda uma base eletrônica que foi composta por mim, é constituída do quarteto  número do compositor americano Morton Feldman, que morreu recentemente e que trabalhou com essa dilatação do tempo também. É, talvez o quarteto mais longo já composto, ele tem 4 horas e 50 minutos. O filme originalmente deveria ter essa duração, mas achei melhor diminuí-lo. Foram feitos alguns recortes do quarteto, e eu tenho a permissão da Fundação Morton Feldman, o que me deixou muito feliz por poder utilizar uma música muito conhecida e que não é minha.

Além disso, o filme cruza essas séries culturais variadas: o poema do Eliot, o Buskashi no Afeganistão, a guerra hoje com a invasão americana, ontem com os talibãs e o Buskashi de sempre desde a Idade Média. Além de outras referências culturais, por exemplo, visualmente a estrutura cromática das cores do filme está muito ligada à pintura romântica, como por exemplo, Dleacroix quando fez a sua viagem ao Marrocos ficou muito impressionado inclusive com os cavalos, essa força majestosa do cavalo. Ao mesmo tempo com as próprias cores desse início de oriente, essa cultura tão diferente da europeia, que marcou toda a obra do Delacroix, assim como Matisse visitado o Taiti, ou Manet, quando jovem, visitando o Rio de Janeiro e Recife. Eu me inscrevo na tradição desses artistas a partir da minha viagem ao Afeganistão, que me marcou de uma forma radical.

CF: Qual a sua expectativa de apresentar seu filme e suas ideia no Cine Futuro, onde temos aqui um espaço para exibição, mas também de debate e construção do "fazer cinema"?

AO: Para mim é uma experiência muito boa, não somente por esse espaço no Teatro Castro Alves, que é deslumbrante, onde eu vou projetar meu filme no original mesmo, como também há um contexto diferenciado aqui criado pelo Walter (Lima) para o Cine Futuro. Que envolve toda essa oportunidade de se encontrar pessoas e ver reunido filmes e obras das mais diversas procedências, que todas elas estão, de alguma forma, na ponta de alguma pesquisa.

Inserir o meu filme dentro disso é importante, e é importante o diálogo que eu vou ter com uma plateia que frequenta o Cine Futuro, que automaticamente é uma plateia que está ligada, vinculada, pelo desejo de fazer ou de fruir ou de pensar o mundo através de relações audiovisuais menos lineares e menos convencionais.

Então o filme entra nesse espaço, sem falar que para mim estar na Bahia é uma experiência única. Estar aqui, dentro deste contexto baiano, para mim, foi um renascimento em termos de Bahia, já que eu não vinha aqui desde garoto.

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